Caos energético: quando vamos aprender?

Beatrice E. Rangel

Todas as nações do mundo se prostram diante da escassez e dos altos preços dos produtos energéticos e seus derivados. Porque o que a Rússia desencadeou ao invadir a Ucrânia é uma crise de fornecimento de energia; uma crise logística para produtos energéticos e uma crise financeira.

Enfrentar essa crise multifacetada exige a suspensão das regulamentações que normalmente pesam no mercado de energia para facilitar o fluxo de fornecimento de energia. Também é necessário rever o emaranhado de controles que pesam sobre as marinhas mercantes do mundo e especialmente sobre os navios-tanque que transportam petróleo e gás e, claro, as transações devem ser facilitadas por meio da harmonização financeira.

Tudo isso exige um gigantesco esforço de coordenação entre governos e empresas privadas que exploram petróleo e gás, entre essas empresas entre si e entre todos os atores do mercado de energia e o sistema financeiro mundial.

Até agora, no entanto, o que vimos é uma corrida louca para regular as atividades petrolíferas que parece não ter fim. Regulamentação das exportações de gás e petróleo nas nações produtoras. Reserva de capacidade de transporte para aquisições estatais de petróleo e gás em todos os lugares e, como se não bastasse, racionamento das vendas ao consumidor em alguns países. Essas políticas fizeram com que o preço do petróleo Brent passasse de US$ 97 para US$ 140 de fevereiro a junho deste ano.

Surge então a questão de qual teria sido a política efetiva para enfrentar essa calamidade desencadeada pela Rússia. A resposta certamente não é o gosto latino-americano. Nas crises, os mercados são o melhor operador para alcançar o equilíbrio. Ou seja, se as leis de oferta e demanda operarem, elas atuarão como elemento racionalizador do mercado e conduzirão ao equilíbrio. Este novo equilíbrio é possivelmente menos satisfatório para o mundo inteiro do que aquele que prevalecia antes da agressão russa na Ucrânia. Mas, a menos que haja alguém disposto a desencadear uma guerra nuclear, a escassez de petróleo continuará por mais ou menos uma temporada. E é hora de aproveitar essa dolorosa contingência para avançar ainda mais na área de energias verdes, que, como evidenciam as trajetórias energéticas da Costa Rica e do Uruguai, acabam por amortecer essas crises derivadas de disrupções no mercado de petróleo. Em suma, é hora de permitir que os mercados racionalizem o consumo de combustíveis fósseis e as nações aproveitem o momento para promover energias autossustentáveis. Que, aliás, abre novas portas de financiamento e aumenta o emprego.

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